Um trio Viçosa para três

Sai da agência tarde, computador travando, job atrasado e outros tantos empilhados esperando todo meu carinho e atenção (hoje não, só amanhã). Essa parte do dia deixo pra trás quando boto meu pé fora do prédio e começo a caminhar até a rodoviária.

Tava chovendo, parou de chover, mensagem avisando que tá sussa, então partiu sem o guarda chuva (fantástico que comprei na Liberdade por tlinta reais). Foram 100 metros até a chuva cair, de novo: nem pensei em nada, não desesperei ou fiquei putaço, só ri desse belíssimo caralho de destino. “Era necessário chover”, “é bom que oxigena o cérebro”, “tinha que ser assim”, “estava tudo escrito para ser”, alguns podem dizer mas isso só vai deixar minhas meias molhadas e infiltrar água na minha mochila, na verdade.

E tudo mudou quando parei na rodoviária, conferi minha carteira e lá estava uma senhora nota de R$ 10, super disponível. Pela imagem percebesse que estou ostentando um trio Viçosa, safra de caldo moído no dia e pastel frito há mais de 3 horas, borrachudo, oleoso e meu, todo meu, fruto do meu trabalho e da minha feliz sorte de ter esquecido de fazer contas direito. Era um sonho consumir carnalmente (e queijamente) aquele quitutes, mas eles não eram meus, do tipo “TODOS só pra mim”. Vou explicar.

the famous “trio Viçosa”

Em menos de 25 segundos após sacar essa foto, me chega um mendigo, que chamarei de Ivonei (tive um cunhado míope, com 10 graus de cegueira, que tinha esse nome). Nei chegou de mansinho, quase como um espírito demoníaco, e pediu um dos pasteis. Negociando de maneira executiva e sendo bem político, perguntei se ele queria o que eu estava comendo (sairia no lucro pois já tinha abocanhado 2/3) e ele topou.

Não disse a vocês mas o Nei tava usando um brinco daqueles de adolescente com detalhe azul. O cidadão, na situação de mendigo, todo sujo, roupa preta, o cabelo duraço, mas tinha aquele elemento que distorcia a realidade, um brinquinho azul, que estavam bem estáile pra falar verdade. Pois lá estou na Plataforma Inferior da Rodoviária, a me recuperar desse susto da porra e me volta o Nei, com um copinho sujo que pegou na lixeira, e me pede solidariamente um pouco de caldo de cana. Claro que compartilhei, afinal, tinha muito ainda e com aquele pastel duro feito pedra, ele iria precisar de algo pra ajudar a engolir. Mas é muito mesmo, tão servindo quase meio litro de caldo num copo agora. Nei finalmente foi embora (será?) para o maravilhoso mundo de Bob e eu achei que minha refeição continuaria sem interrupções. Novamente, um puta engano.

Outra vez fui abordado, agora por um cara esquisitão, tipo aquela moçada que faz o jogo da bolinha (ele tinha um colega ao lado). O chamarei de Claudinho (esse era os córneos daquele cantor da dupla Claudio & Bochecha, o que morreu). Mais tímido, novamente falando baixo (acho que para dar aquela sintonizada “na humildade”), vestindo uma bermuda da Cyclone e camiseta de algum time europeu, Claudinho pediu, na moral e na humilde, meu caldo. Sim, ele queria dar um bico no meu caldo.

Sabe o que me deixou em pânico? Não foi a possibilidade de aqueles dois distintos senhores me assaltarem, pegarem meu pastel de carne (já nos finalmente, estava faminto) ou até levar o que restava do caldo (Nei me levou metade e só restava uns 150ml).  Nada disso. Me veio automaticamente a lembrança de que estou, há 2 dias, me recuperando de uma afta, próxima ao céu da boca, que tem me incomodado bastante. Problemas com acidez de alguns alimentos, a correria do trabalho, estresse, tudo isso pode favorecer ao surgimento dessas úlceras na boca que estragam a vida da gente.

Fiquei bem bolado de compartilhar com Claudinho meu copo porque, se eu deixo ele dar um bico e isso acaba por aumentar ainda mais minha afta. Mas ele poderia dizer “minha boca é limpinha, uso Cepacol, pode confiar”. Mas não dá pra confiar nessas coisas. Porra Nei, olha em que situação você me deixou, cara?

Numa fração de segundos, mentira, menos do que isso, fiz uma mágica mastigatória e desapareci com aquele pedaço de pastel que ainda estava na mão. Pedi paciência ao Claudinho e dei, eu meu “último bico” no copo de caldo e entreguei ao sedento rapaz, que saiu sem ao menos dizer obrigado. Acho que o Nei também saiu sem me dar obrigado, tomar no cu os dois então.

Dei meu copo de caldo e talvez o Claudinho tenha de lidar com uma afta no futuro. Na verdade, não espero que ele tenha esse desprazer, afta é um negócio chato para caralho. O importante é que cheguei em casa, não estou tão molhado e amanhã pode acontecer tudo, outra história fantástica como essa ou até nada. E ser só mais um dia regular, com a gente compartilhando, sejam os Stories da vida, o caldo, um pastel, o que a gente puder.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.