Criança interior

Acho que fui uma criança legal, adorava esse chinelo amarelo que tinha um solzinho. Nessa época a gente ainda morava no barraco de madeira e tinha umas baratonas que andavam dentro do colchão. Lá no fundo dessa foto dá pra ver a casa da dona Balbina, já levantando uma alvenaria. Ao lado dela tinha o barracão do seu Pilola, avô do Léo, pai dos filhos da dona Geza, uma família grande mas muito gente boa. Sempre passava lá de tarde pra chamar os moleques, ou pra brincar na rua ou ficar curiando os aparelho de som queimado, tubo de televisão e um monte de fio, nos fundos do cafofo do Nixon.

O trabalho infantil era ocasional na oficina do Osmar, onde a gente lavava peças dos carros, usando gasolina e querosene, e ganhava um pão com Baré. Que saudade da vó Maria, a mãe do tio Celso e da minha madrinha, Marina. Essa vó de todos nós (que Deus a tenha em bom lugar) sempre trazia pão de queijo e bolo no meio da brincadeira, na calçada, com aquele pratinho coberto pelo pano de prato, bordado por ela mesma. A gente todo largado, todo sujo de terra e ela matando nossa fome, acreditando no rolê e praticando a caridade.

com poucos anos de idade e muito mais cabelo na cabeça do que hoje

Não sei se fui uma criança estranha ou se hoje me tornei um adulto sem sal, mas naquela época nada precisava fazer sentido, era tudo caótico mas ao mesmo tempo, legal e fluido demais. A única motivação séria que eu tinha era viver um dia melhor que o outro e ver o tempo passar. E eu achava que tudo demorava demais.

Mas de repente, agora, estou aqui escrevendo, uns 30 anos depois, lembrando de tanta coisa… me desculpem mas nem sei como finalizar isso aqui, vejamos: um feliz Dia das Crianças – sejam elas crianças viadas, trans, nerds, cuzonas, mimadas, geniais, incompreendidas, criativas, bravas, eufóricas, aventureiras ou até mesmo aquelas meio “caladonas”, com jeito de psicopata, tá ligado? Afinal, quem de nós não foi?

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